sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

DUAS BOLAS, POR FAVOR


Não há nada que me deixe mais frustrada do que pedir sorvete de sobremesa,contar os minutos até ele chegar e aí ver o garçom colocar na minha frente uma bolinha minúscula do meu sorvete preferido. 

Uma só. 

Quanto mais sofisticado o restaurante, menor a porção da sobremesa. 

Aí a vontade que dá é de passar numa loja de conveniência, comprar um litro de sorvete bem cremoso e saborear em casa com direito a repetir quantas vezes a gente quiser, sem pensar em calorias, boas maneiras ou moderação. 






O sorvete é só um exemplo do que tem sido nosso cotidiano. 

A vida anda cheia de meias porções, de prazeres meia-boca, de aventuras pela metade. 

A gente sai pra jantar, mas come pouco. 

Vai à festa de casamento, mas resiste aos bombons. 
conquista a chamada liberdade sexual, mas tem que fingir que é difícil (a imensa maioria das mulheres continua com pavor de ser rotulada de 'fácil'). 

Adora tomar um banho demorado, mas se contém pra não desperdiçar os recursos do planeta./ 

Tem vontade de ficar em casa vendo um dvd, esparramada no sofá, mas se obriga a ir malhar./ 

E por aí vai. 

Tantos deveres, tanta preocupação em 'acertar', tanto empenho em passar na vida sem pegar recuperação... 

Aí a vida vai ficando sem tempero, politicamente correta e existencialmente sem-graça, enquanto a gente vai ficando melancolicamente sem tesão... 

Às vezes dá vontade de fazer tudo “errado”. 

Deixar de lado a régua, o compasso, a bússola, a balança e os 10 mandamentos. 

Ser ridícula, inadequada, incoerente e não estar nem aí pro que dizem e o que pensam a nosso respeito. 

Recusar prazeres incompletos e meias porções. 

Nós, que não aspiramos à santidade e estamos aqui de passagem, podemos (devemos?) desejar várias bolas de sorvete, bombons de muitos sabores, vários beijos bem dados, a água batendo sem pressa no corpo, o coração saciado.



Um dia a gente cria juízo. 

Um dia... 

Não tem que ser agora.



Por isso, garçom, por favor, me traga: cinco bolas de sorvete de chocolate... 

Depois a gente vê como é que faz pra consertar o estrago.



(Danuza Leão) 

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